Duas notícias desta semana têm a mesma raiz. Maru2D assinou com a NADAMAL, de Filipe Ret, e Celo Dut, do selo 999, de Baco Exu do Blues, marcou o show de lançamento do primeiro álbum. Nos dois casos, quem banca o artista é outro rapper. As gravadoras de rap fundadas pelos próprios MCs não são novidade no Brasil: são a regra desde os anos 1980, quando a indústria simplesmente não atendia o telefone.
Zimbabwe e Cosa Nostra: o caminho dos Racionais
A história começa na Zimbabwe Records, selo independente paulista que apostou no rap quando as grandes gravadoras ainda tratavam o gênero como moda passageira. Foi por ela que saiu a coletânea “Consciência Black, Vol. I”, de 1988, que apresentou os Racionais MC’s ao país, e o álbum “Raio-X do Brasil”, de 1993, que vendeu cerca de 200 mil cópias.
Com o grupo grande, o passo seguinte foi cortar o intermediário. Em 1997, “Sobrevivendo no Inferno” saiu pela Cosa Nostra Fonográfica, a gravadora do próprio quarteto. O disco virou o maior símbolo do rap nacional feito fora do sistema e, décadas depois, entrou na lista de leitura obrigatória de vestibular.
Só Balanço, o selo que virou estúdio em Brasília
No Distrito Federal, GOG seguiu o mesmo caminho em 1993, ao fundar o selo independente Só Balanço. A casa depois virou loja de discos e estúdio, e sustentou boa parte de uma discografia de 11 álbuns construída sem depender de contrato grande.
LAB Fantasma e a geração que transformou selo em empresa
A virada de escala veio com o LAB Fantasma, criado por Emicida e pelo irmão Evandro Fióti por volta de 2009. Além de lançar discos, a casa virou marca de roupa, produtora e operação de eventos, modelo copiado por boa parte da cena. Em março de 2025, os irmãos romperam a parceria e a disputa foi parar na Justiça, segundo a CNN Brasil.
O episódio expõe o outro lado do modelo: quando artista e empresário são a mesma pessoa, ou a mesma família, o problema societário vira problema artístico.
NADAMAL, 999 e 1Kilo: as gravadoras de rap de agora
A geração atual repete a lógica. Filipe Ret fundou a NADAMAL, que acaba de anunciar Maru2D como a primeira mulher do elenco. Baco Exu do Blues montou o 999, que revelou Celo Dut, da Cidade Baixa de Salvador. E a 1Kilo, que completou dez anos como uma das precursoras do rap acústico no país, segue assinando nomes de batalha, como o niteroiense BLT.
Mudou a escala, não a lógica. O artista que já tem público usa o próprio nome para abrir porta para quem vem atrás, e fica com o controle do catálogo. É por isso que, no rap brasileiro, a pergunta “por qual gravadora saiu?” quase sempre tem como resposta o nome de outro rapper.
Leia também na Rap Growing: Consciência Black, Vol. I: a coletânea da Zimbabwe e Relembre o Disco: a estreia de Emicida em álbum.
Foto: Kaloian / Ministerio de Cultura de la Nación (CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons).
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