Bob Burnquist completa 50 anos neste sábado, 10 de outubro de 2026, com uma carreira que ajuda a explicar por que o skate brasileiro deixou de ser apenas uma cena local para ocupar o centro do esporte mundial. Nascido no Rio de Janeiro e criado em São Paulo, ele começou a andar aos 11 anos, virou profissional aos 14 e passou mais de três décadas expandindo o que era possível fazer sobre um skate.
A importância de Bob para o Brasil vai muito além de medalhas. Ele foi campeão, inventor, personagem de videogame, construtor de pistas, dirigente, referência para gerações e um dos atletas que mais ajudaram a transformar o skate em cultura global. Aos 50, sua história passa pelo X Games, por Tony Hawk’s Pro Skater, pela MegaRamp, pelo Grand Canyon e por uma geração brasileira que cresceu vendo um skatista do país ser tratado como lenda nos Estados Unidos.
O X Games de 2001 transformou Bob Burnquist em referência definitiva do vertical
Em 18 de agosto de 2001, nos X Games da Filadélfia, Bob entregou uma volta que continua sendo lembrada como uma das maiores da história do skate vertical. A nota foi 98,00. O que tornou aquele minuto tão importante não foi apenas a pontuação, mas a sequência de manobras em switch e a sensação de que o brasileiro estava criando novas possibilidades em tempo real. O próprio histórico do X Games mantém Burnquist como o atleta mais condecorado de sua história.
Tony Hawk estava na transmissão e reagiu em estado de incredulidade à sequência. Bucky Lasek, que liderava a competição antes da volta de Bob, recebeu o brasileiro no fim da apresentação. Vinte e cinco anos depois, a cena ainda aparece em retrospectivas do X Games e permanece como uma referência para entender a maneira como Burnquist tratava competição: não bastava executar o repertório mais seguro, era preciso acrescentar alguma coisa ao skate.
Esse impulso já aparecia no modo como Bob desenvolveu o switch stance. Ele próprio costuma fazer uma correção importante quando o assunto aparece: não foi o inventor de andar com a base invertida. O diferencial foi explorar o switch em um nível técnico e criativo que ajudou a normalizar a ideia de que as duas bases poderiam fazer parte do mesmo repertório. Em uma época em que a televisão ainda era decisiva para transformar atletas em referências internacionais, essa habilidade dava ao brasileiro uma identidade visual imediata.
Antes das redes sociais, Bob já era personagem de Tony Hawk’s Pro Skater
A chegada de Bob à cultura pop aconteceu antes de YouTube, Instagram ou TikTok existirem. Em 1999, quando o primeiro Tony Hawk’s Pro Skater ainda estava em desenvolvimento, Tony Hawk chamou Burnquist para participar do projeto. Em uma das primeiras demos públicas do jogo, os dois eram os únicos personagens jogáveis, detalhe que Bob relembrou em entrevistas à NME e à ESPN Brasil.
Bob contou anos depois que ele e Hawk eram rivais diretos nas competições quando recebeu o convite. A escolha teve um peso que hoje pode parecer difícil de medir. Para uma geração inteira, conhecer Bob Burnquist não exigia assistir ao X Games ao vivo: bastava ligar um PlayStation. O brasileiro entrou no mesmo espaço cultural de Tony Hawk, Rodney Mullen, Chad Muska, Bucky Lasek e outros nomes que ajudaram a transformar skate, punk, hip-hop e videogame em uma linguagem compartilhada no fim dos anos 1990.
Ele apareceria em vários jogos da franquia ao longo dos anos. Mais que uma participação promocional, aquilo ajudou a fixar um skatista brasileiro no imaginário de milhões de jogadores. Em 2020, ao lembrar o desenvolvimento do primeiro game, Bob explicou que Tony o chamou ainda no protótipo, quando os dois eram os únicos disponíveis para jogar. Era uma validação incomum para um atleta brasileiro em uma indústria essencialmente americana.
Dreamland e a MegaRamp transformaram o quintal em laboratório de progressão
Quando Bob se estabeleceu na Califórnia, uma das prioridades ao procurar casa era simples: precisava haver espaço para construir rampas. O resultado virou Dreamland, um complexo particular em Vista que cresceu com bowl, full pipe, loop e outras estruturas até receber uma MegaRamp a partir de meados dos anos 2000.
Em 2015, o Esporte Espetacular mostrou o tamanho do projeto: um terreno de quase 50 mil metros quadrados e uma MegaRamp de cerca de 170 metros de extensão. Mais importante do que a escala era a função. Dreamland virou laboratório. Bob podia testar linhas, estudar velocidade, modificar obstáculos e receber skatistas do mundo inteiro sem depender da estrutura de uma competição.
A MegaRamp também mudou a própria carreira de Burnquist. O formato permitia trabalhar velocidade e amplitude em uma dimensão que o vertical tradicional não entregava. Foi nesse ambiente que ele aprofundou uma parte de sua identidade: construir obstáculos não apenas para repetir manobras conhecidas, mas para criar problemas novos para o skate resolver.
Em 2008, Bob ajudou a levar a MegaRampa ao Brasil e venceu a primeira edição realizada no país, no Sambódromo do Anhembi. Depois da vitória, disse que trazer o formato para cá era um sonho porque havia crescido e aprendido a andar de skate no Brasil. Nos anos seguintes, ele transformou a competição em território próprio: voltou a vencer no país e chegou ao Rio em 2012 como principal referência da modalidade, consolidando a MegaRampa como parte de seu legado também diante do público brasileiro.
Do Grand Canyon às medalhas: risco nunca foi só espetáculo
Em 2006, Bob levou essa lógica ao Grand Canyon. Uma rampa terminava em um corrimão sobre o vazio. A proposta era realizar um 50-50 e, depois da saída, abandonar o skate e abrir um paraquedas. O GloboEsporte.com registrou a ação na época, realizada na região de Hell Hole Bend, no Arizona. A tentativa ficou como uma das imagens mais extremas da carreira e resume uma diferença importante entre risco e improviso: por trás do impacto visual havia preparação, cálculo e repetição.
Essa disposição para continuar aumentando a dificuldade atravessou os X Games. Bob terminou sua trajetória competitiva no evento com 30 medalhas, marca que o colocou como maior medalhista da história da competição. O perfil oficial do Instituto Skate Cuida contabiliza 14 ouros, oito pratas e oito bronzes, enquanto o X Games confirma o total de 30 medalhas. Em 2015, já veterano e com o braço quebrado, ainda conquistou dois ouros em Austin.
O número ajuda a dimensionar a consistência, mas não explica sozinho o legado. Bob atravessou diferentes eras do skate competitivo. Esteve presente quando o X Games ajudava a levar esportes de ação para a televisão aberta, viveu o auge dos videogames de skate, participou da consolidação da MegaRamp e seguiu ativo quando o skate entrou no programa olímpico.
O impacto de Bob Burnquist no skate brasileiro não termina nas pistas
O Brasil de hoje produz medalhistas olímpicos, campeões mundiais e alguns dos nomes mais influentes do skate internacional. Esse cenário não nasceu de uma única pessoa, mas Bob abriu uma janela importante. Durante anos, ele foi a prova concreta de que um skatista brasileiro podia morar na Califórnia, competir de igual para igual com os maiores nomes dos Estados Unidos e, mais do que isso, alterar a própria linguagem do esporte.
A Rap Growing já mostrou como Bob voltou ao X Games em 2026 como General Manager do XC São Paulo. A função diz muito sobre a fase atual de sua trajetória. O skatista que ajudou a redefinir a competição agora participa da estrutura que tenta reinventá-la para uma nova geração.
Ele também passou pela presidência da Confederação Brasileira de Skate durante o ciclo de entrada da modalidade nos Jogos Olímpicos e fundou em 2020 o Instituto Skate Cuida. A iniciativa usa o skate como ferramenta de educação, inclusão e acesso, levando estrutura, oficinas e formação para jovens e comunidades.
Essa dimensão social conecta a carreira profissional à realidade que Bob conheceu no começo. Em entrevistas sobre Dreamland, ele lembra que cresceu no Brasil sem pista perto de casa e precisava passar horas em ônibus para conseguir andar. Décadas depois, boa parte de seu trabalho fora das competições está justamente em aproximar outras pessoas do skate.
Aos 50, Bob Burnquist continua sendo uma medida de progressão
Definir Bob apenas como o maior medalhista do X Games seria reduzir uma carreira que sempre tentou fugir da repetição. A volta de 2001, o switch, os videogames de Tony Hawk, a MegaRamp, o Grand Canyon e Dreamland pertencem a fases diferentes, mas seguem a mesma lógica: descobrir alguma coisa que ainda não estava pronta.
É também por isso que sua importância para o Brasil ultrapassa o esporte. Bob foi um dos primeiros atletas brasileiros de ação a ocupar simultaneamente competição, entretenimento, videogame, televisão e cultura de rua em escala mundial. Quando o skate brasileiro atual chega aos Jogos Olímpicos ou domina eventos internacionais, existe uma história anterior que ajudou a construir essa possibilidade.
Em um esporte obcecado por progressão, completar 50 anos pode parecer contraditório. No caso de Bob Burnquist, funciona quase como uma confirmação de método. A idade mudou, as funções aumentaram, mas a pergunta que orientou sua carreira continua a mesma: o que ainda dá para fazer em cima de um skate?