Felipe Vaz voltou com um disco que tem cara de travessia. Em “Até onde meus pés alcançarem e minhas mãos puderem tocar”, lançado em 21 de agosto de 2026, o artista de Duque de Caxias cruza rap, funk, atabaques e memória periférica para narrar o deslocamento entre Baixada Fluminense e Centro do Rio. Não é um álbum sobre sair de um lugar. É sobre carregar esse lugar no corpo.
Segundo a Rap Mídia, o projeto marca o terceiro álbum do artista e chega depois de quatro anos de hiato. São sete faixas, 23 minutos de duração e uma parceria estrutural com Noite Moderna, na escrita, e Buzu, na produção. O resultado aponta para um disco curto, direto e cheio de camadas sobre território, sobrevivência, ancestralidade e circulação.
A Baixada como centro narrativo
O ponto forte da obra está na forma como Felipe Vaz posiciona a Baixada. Ela não aparece como cenário de origem a ser abandonado, nem como fetiche de dureza. Aparece como inteligência: um modo de perceber tempo, cidade, risco, afeto e trabalho. Quando o disco fala de deslocamento, fala também das marcas que cada deslocamento deixa no corpo de quem precisa atravessar a cidade para existir.
Musicalmente, essa escolha aparece na mistura de elementos. O rap dá a espinha narrativa. O funk aproxima o disco do pulso urbano e da experiência coletiva. Os atabaques abrem uma camada ancestral que não soa como ornamento, mas como fundamento. A costura entre essas linguagens dá ao álbum uma sensação de caminhada: cada faixa parece avançar alguns metros dentro da mesma cidade desigual.
Rap de movimento
O título do disco ajuda a entender a proposta. “Até onde meus pés alcançarem” sugere limite físico, cansaço, distância. “E minhas mãos puderem tocar” sugere desejo, construção e posse simbólica do mundo. Felipe Vaz escreve justamente no espaço entre essas duas forças: a cidade que limita e a arte que estica o alcance.
Num momento em que parte do rap nacional corre para fórmulas de algoritmo, o álbum escolhe o caminho oposto: densidade, autoria e recorte local. Ele não tenta transformar a Baixada em marca vazia. Ele a trata como território de pensamento, o que muda completamente o peso da escuta.
O retorno de Felipe Vaz interessa porque recoloca no centro uma pergunta essencial para a música urbana brasileira: quem atravessa a cidade todos os dias também atravessa quais fronteiras invisíveis? O disco não responde isso em discurso pronto. Responde com ritmo, corpo e palavra.
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