A segunda temporada do Troca Rima começou colocando duas gerações importantes do rap brasileiro frente a frente. NOG recebeu Negra Li no episódio de estreia, lançado no fim de setembro, em um encontro que passou pela improvisação, por referências históricas do hip-hop e pela experiência de uma artista que atravessa cerca de três décadas de música.
O programa foi além de uma entrevista tradicional. Com DJ Kefing conduzindo as bases, Negra Li e NOG trocaram rimas ao vivo e construíram um episódio em que repertório e memória se misturam. A presença de instrumentais ligados a Lauryn Hill, Doechii e ao clássico “Rap é Compromisso”, de Sabotage, ajudou a transformar a estreia em uma conversa direta com diferentes momentos da cultura.
Negra Li transforma a estreia em encontro entre gerações
A escolha de Negra Li para abrir a nova temporada dá ao Troca Rima uma dimensão que vai além da performance. Sua trajetória acompanha boa parte da transformação do rap paulista desde os anos 1990, enquanto NOG representa uma geração que cresceu com a internet acelerando lançamentos, colaborações e novas formas de circulação da música.
Esse contraste aparece sem transformar o episódio em disputa de épocas. A proposta funciona justamente porque os dois artistas dividem o mesmo espaço de criação. Segundo o Rap Dab, um dos momentos de maior repercussão foi a entrada de Negra Li sobre uma base ligada a Lauryn Hill, seguida pela reação imediata de NOG e de quem acompanhava a gravação.
O formato também favorece aquilo que muitas entrevistas sobre rap perdem quando ficam presas apenas à conversa sobre carreira. Aqui, a memória aparece dentro da música. As referências entram pelos beats, pelas respostas e pela forma como cada participante ocupa o instrumental, sem separar história e prática.
A Rap Growing já vinha acompanhando a movimentação recente de NOG, inclusive no lançamento de “DEJA VU” e sua relação com passado, identidade e amadurecimento artístico. No Troca Rima, essa busca por contexto ganha outra camada porque o rapper assume também o papel de anfitrião.
Lauryn Hill, Sabotage e DJ Kefing costuram o repertório do episódio
As bases escolhidas por DJ Kefing ajudam a explicar por que o episódio ganhou força nas redes. Em vez de funcionar apenas como acompanhamento, o repertório cria pontes claras entre referências internacionais e brasileiras. Lauryn Hill aparece como ponto de partida para uma das performances de Negra Li, enquanto a presença de “Rap é Compromisso” recoloca Sabotage dentro de uma conversa que segue atual para qualquer artista que trabalha com rap no Brasil.
O Mundo da Rua destacou justamente essa mistura entre conversa e rima ao vivo na retomada do projeto. É um formato que depende menos de frases recortadas e mais da capacidade do convidado de reagir ao ambiente, ao beat e ao outro artista.
Para o Troca Rima, abrir a temporada com Negra Li também estabelece o tamanho do que o programa pretende discutir. O episódio não trata legado como peça de museu. Ele coloca uma artista veterana dentro de uma dinâmica contemporânea e mostra que a história do rap continua sendo escrita quando diferentes gerações conseguem dividir o mesmo microfone sem apagar suas diferenças.
Crédito da capa: Reprodução/YouTube via Rap Dab.