Música
Pedro Qualy abre nova fase com “Tarôs”, parceria com Sotam que aposta em R&B alternativo, tensão emocional e estética brutalista
Conhecido por sua trajetória no Haikaiss, Qualy usa o novo single para reforçar uma identidade mais sofisticada, cinematográfica e voltada para relações…
Publicado
há 5 mesesem
Conhecido por sua trajetória no Haikaiss, Qualy usa o novo single para reforçar uma identidade mais sofisticada, cinematográfica e voltada para relações ambíguas, desejo e paranoia emocional.
Pedro Qualy lançou “Tarôs” no dia 5 de junho de 2026, em parceria com Sotam, abrindo uma fase que parece menos preocupada em repetir fórmulas do passado e mais interessada em construir uma assinatura própria, apresentando uma estética descrita no próprio projeto como brutalista, editorial e emocionalmente silenciosa.
O lançamento marca um movimento importante dentro da trajetória de Qualy. Durante anos, seu nome esteve ligado ao Haikaiss, grupo que ajudou a formar parte do imaginário do rap nacional na última década, com discos, turnês, refrões marcantes e faixas que atravessaram a bolha do rap. Mas “Tarôs” mostra um artista tentando ocupar outro espaço, mais íntimo, mais visual e mais próximo de um R&B alternativo com atmosfera de trapsoul.
A ideia central da faixa parte de uma imagem forte: quando intuição e paranoia se confundem, o desejo vira destino. A partir disso, Qualy e Sotam constroem uma narrativa sobre magnetismo, tensão afetiva e relações modernas em que ninguém sabe exatamente onde termina a atração e começa a instabilidade emocional.
“Quando intuição e paranoia se confundem, o desejo vira destino.”
Qualy para além do Haikaiss
Falar de Pedro Qualy sem lembrar do Haikaiss seria ignorar uma parte importante da história. O grupo surgiu em São Paulo em 2006 e se consolidou como um dos nomes mais populares do rap brasileiro, especialmente depois de uma sequência de projetos que ajudaram a ampliar sua base de público. Qualy entrou no grupo ainda no começo da caminhada e participou de fases importantes da construção dessa marca.
O Haikaiss viveu um dos seus momentos mais fortes com “Raplord”, faixa lançada em 2017 que ultrapassou o ambiente tradicional do rap e levou o grupo para grandes festivais, programas de TV e até para a trilha do game internacional “Need for Speed: Payback”. A partir dali, o nome de Qualy ficou associado a uma geração que ajudou a transformar cypher, punchline, melodia e internet em linguagem de massa dentro do rap nacional.
Mas existe um desafio natural para qualquer artista que vem de um grupo grande: deixar de ser visto apenas como parte de uma engrenagem coletiva e construir uma identidade que sobreviva sozinha. “Tarôs” parece nascer justamente nesse ponto. Não como negação do passado, mas como tentativa de ampliar o vocabulário artístico de Qualy.
Uma música sobre desejo, paranoia e relações modernas
Em “Tarôs”, o imaginário místico não aparece como esoterismo literal. A carta, o pressentimento e a leitura do destino funcionam como metáforas para relações onde tudo parece sinal, mas nada é completamente confiável. O que poderia virar uma estética óbvia de tarô, vela e ritual, aqui é tratado de outro jeito: como moda, cinema, silêncio, luz branca, concreto, sombra e tensão.
Essa escolha é importante porque tira a faixa do lugar comum. A música não tenta vender uma fantasia mística. Ela usa essa imagem para falar de um tipo de vínculo muito atual, onde desejo, insegurança, controle emocional e atração se misturam. É menos sobre prever o futuro e mais sobre não conseguir entender o presente.
Ao lado de Sotam, Qualy encontra um caminho mais melódico e atmosférico, distante da energia explosiva que marcou muitos momentos do Haikaiss. A faixa se aproxima de uma linguagem urbana contemporânea, com espaço para vulnerabilidade, estética de noite, tensão de relacionamento e um tipo de entrega vocal mais contida.

O clipe como extensão da música
O audiovisual de “Tarôs” também faz parte da proposta. Segundo o material de lançamento, o clipe trabalha com cenários brutalistas, plataformas geométricas, iluminação clínica branca e contraste entre luz e sombra. A referência não é o videoclipe tradicional de rap, mas uma estética mais próxima de fashion film, com influência de nomes e universos como The Weeknd, Euphoria e Don Toliver.
Essa direção visual ajuda a reforçar o momento de reinvenção. Qualy aparece menos como personagem de grupo e mais como artista tentando controlar atmosfera, imagem e narrativa própria. O clipe não existe apenas para acompanhar a faixa. Ele funciona como declaração estética de fase.
A capa oficial também segue essa linha. A imagem trabalha com poucos elementos, predominância de sombra, contraste forte e uma construção visual mais fria, colocando Pedro Qualy e Sotam em uma posição quase cinematográfica. A escolha conversa com a proposta da música: pouca explicação, muita tensão.
Reinvenção sem apagar a história
O ponto mais interessante de “Tarôs” é que a faixa não tenta apagar o Qualy que veio do rap de grupo, dos versos densos, das colaborações e da era em que o Haikaiss virou referência para uma geração. Ao contrário, ela parte desse histórico para mostrar que o artista pode se movimentar em outros territórios sem precisar abandonar a própria bagagem.
Existe uma diferença grande entre mudar de estética por tendência e mudar porque a carreira pede outra camada. No caso de Qualy, “Tarôs” parece funcionar como um capítulo de maturidade. O artista que ficou conhecido dentro de uma formação coletiva agora explora um campo onde o clima, a interpretação, a imagem e a ambiguidade emocional pesam tanto quanto a rima.
Isso coloca Pedro Qualy em um lugar interessante dentro da música urbana brasileira. Ele não está apenas tentando provar que consegue seguir depois do Haikaiss. Ele está tentando mostrar que sua identidade artística não se resume ao papel que ocupou dentro do grupo. “Tarôs” é uma aposta nesse reposicionamento.

Uma nova leitura de Pedro Qualy
Com “Tarôs”, Pedro Qualy apresenta uma obra que olha para desejo e paranoia sem transformar isso em exagero dramático. A música aposta no silêncio, na imagem, no magnetismo e na dúvida. É uma faixa sobre relações em que todo gesto parece mensagem, toda ausência vira teoria e toda atração carrega um risco escondido.
Ao lado de Sotam, Qualy encontra uma linguagem que combina R&B alternativo, trapsoul e estética urbana de alto padrão, abrindo espaço para uma fase mais sofisticada e menos previsível. Para um artista que já viveu o peso de estar em um dos grupos mais conhecidos do rap nacional, esse tipo de movimento importa porque mostra fôlego criativo e vontade de não ficar preso à própria história.
No fim, “Tarôs” não é só mais um single. É uma carta aberta de mudança. Pedro Qualy parece entender que a melhor forma de honrar o passado não é repetir o que já funcionou, mas usar a experiência para construir outro lugar.

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