Muito antes do funk carioca e do rap nacional, o subúrbio do Rio já lotava clubes ao som da música negra americana. Nos anos 1970, os bailes soul da Zona Norte reuniam milhares de jovens em noites que misturavam James Brown, roupas e cabelos black power e afirmação racial. Em 2026, faz 50 anos que esse movimento ganhou nome: Black Rio.
A reportagem que deu nome ao movimento
Em 17 de julho de 1976, o Jornal do Brasil publicou na capa do Caderno B a reportagem “Black Rio: o orgulho (importado) de ser negro no Brasil”, da jornalista Lena Frias, com fotos de Almir Veiga. O texto falava em “mais de um milhão de rapazes e moças” da Zona Norte e da periferia envolvidos com os bailes, e citava equipes como Black Power, Petrus e Dynamic Soul, capazes de reunir de 5 a 15 mil pessoas por noite, segundo o resgate feito pelo jornalista Marcelo Pinheiro.
Dom Filó e a Soul Grand Prix
Um dos nomes centrais dessa história é Dom Filó, nome artístico de Asfilófio de Oliveira Filho, nascido no Rio em 1950. Segundo o Dicionário Cravo Albin, ele fundou nos anos 1970, com Mr. Paulão, a equipe Soul Grand Prix, que animava o baile “Noite do Shaft” no Clube Renascença, no Andaraí. A equipe foi uma das primeiras a lançar discos com o repertório dos bailes e é apontada como embrião de equipes que vieram depois, como a Furacão 2000.
Sobre a origem do movimento, Dom Filó resumiu a proposta assim, em declaração reproduzida por Marcelo Pinheiro: a ideia era “juntar o pessoal e colocar o soul do lado do brasileiro”. Os bailes usavam sistemas de som enormes, filmes, fotos e cartazes para valorizar a estética negra, segundo a Wikipédia.
Os bailes na mira da ditadura
A visibilidade teve um custo. Cinco dias depois da reportagem do JB, o delegado da Polícia Militar Antônio Viçoso Cotta Gomes enviou ao órgão de informações do governo uma carta pedindo a retomada da investigação sobre os bailes, com a matéria anexada, e classificou o assunto como de “magna importância”, segundo documentos citados por Marcelo Pinheiro. Em plena ditadura, jovens negros reunidos aos milhares em torno de orgulho racial eram vistos como ameaça.
O som que ficou
O movimento influenciou uma geração de músicos, como Gerson King Combo, Carlos Dafé, Sandra de Sá e a Banda Black Rio, e deixou uma herança direta na cultura dos bailes do Rio, de onde nasceria, anos depois, o funk carioca. A mesma lógica de equipe de som, baile de subúrbio e música negra importada e reinventada aparece em São Paulo, onde os bailes black ajudaram a formar a cena que daria origem ao rap, no centro da cidade e na estação São Bento.
Dom Filó seguiu registrando essa memória. Em 1988 criou a Cultne, instituto e produtora dedicados à cultura negra, cujo acervo em vídeo é descrito pelo Dicionário Cravo Albin como um dos maiores do gênero na América Latina. Em 2023, apresentou o longa “Black Rio! Black Power!” e foi curador de um dos ambientes da exposição sobre o funk no Museu de Arte do Rio.
Leia também na Rap Growing: Consciência Black, Vol. I: a coletânea que apresentou os Racionais e Estação São Bento: o berço do hip-hop brasileiro.
Foto: Acervo Cultne (CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons).
Fontes