Dexter, que sobe ao palco do Rock the Mountain com L7 e Djonga nos fins de semana de 30 de outubro e 6 de novembro, construiu uma das trajetórias mais marcantes do rap brasileiro a partir de uma cela de presídio. Foi no Carandiru, em São Paulo, que ele e Afro-X formaram o 509-E, dupla que levou a vida no cárcere para o centro do gênero no fim dos anos 1990.
A escalação do festival na região serrana do Rio, que a Rap Growing detalhou na programação do Rock the Mountain 2026, junta o Oitavo Anjo a duas gerações seguintes do rap. É um bom momento para lembrar de onde ele vem.
Como nasceu o 509-E
Dexter e Afro-X se conheceram nos anos 1980, no Jardim Calux, em São Bernardo do Campo, segundo o Brasil de Fato. Na década seguinte, os dois foram presos e acabaram no Carandiru, onde dividiram a cela 509-E, que deu nome ao grupo. Dexter cumpria pena de 17 anos por sete assaltos à mão armada; Afro-X, de 14 anos por dois assaltos e um estelionato.
De dentro do presídio, a dupla lançou “Provérbios 13”, em 2000, e “MMII DC (2002 Depois de Cristo)”, em 2002. Músicas como “Saudades Mil”, “Mile Dias”, “Castelo de Ladrão” e “Oitavo Anjo” viraram referência. Segundo a Wikipédia, o primeiro disco teve participações de Mano Brown, Edi Rock, MV Bill e DJ Hum, e a exposição do grupo na imprensa incomodou as autoridades da época.
O fim do grupo e a carreira solo
O 509-E acabou em 2003, depois de desentendimentos que os dois nunca detalharam publicamente. Cada um seguiu carreira solo, e Dexter se firmou como um dos nomes mais respeitados do rap paulista, com discos próprios e shows que mantêm viva a memória do Carandiru, presídio desativado em 2002 onde hoje fica o Parque da Juventude.
Em 2019, os dois anunciaram uma série de shows de reencontro pelos 20 anos da parceria. “Mano, nós somos a história viva do Carandiru”, disse Afro-X ao Brasil de Fato na época. Em 2024, Dexter abriu o primeiro dia do Lollapalooza Brasil com uma encenação de presos em pátio e uma faixa com os dizeres “Exilado, sim. Preso, não”, segundo a Billboard Brasil. No mesmo show, cantou o trecho final de “Diário de um Detento”, dos Racionais, sobre o massacre de 111 presos no Carandiru, em outubro de 1992.
Por que Dexter continua relevante
A história de Dexter atravessa dois temas centrais do rap brasileiro: o sistema prisional e a possibilidade de reconstrução pela música. O tema também aparece na leitura que a Rap Growing fez de “Sobrevivendo no Inferno”, disco que traz “Diário de um Detento”. Dividir o palco com Djonga e L7 num festival de público amplo mostra que esse repertório segue conversando com quem chegou ao rap muito depois do Carandiru.
Fontes e créditos
Origem do grupo, penas, discos, músicas, separação e reencontro: Brasil de Fato. Participações em “Provérbios 13” e contexto da época: Wikipédia, “509-E”. Show no Lollapalooza 2024: Billboard Brasil. Escalação do Rock the Mountain: Rap Dab. Imagem de capa: Mano Brown, Dexter e GOG em encontro sobre ressocialização pela cultura hip-hop, em 2011, por Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil (CC BY 3.0 BR). Imagem de arquivo.