Nascido e criado em Serra Negra, no interior de São Paulo, o artista de 24 anos fala sobre a falta de cultura hip hop em sua cidade, a rotina como garçom e os próximos passos de sua carreira musical.
João Victor Molina da Cunha, mais conhecido como Molina, tem 24 anos e nasceu em Serra Negra, cidade do interior de São Paulo, na região de Campinas. Com pouco mais de 30 mil habitantes, o município carrega aquele clima de cidade pequena, onde quase todo mundo se conhece e onde a cultura urbana ainda não ocupa o mesmo espaço que aparece nos grandes centros.
Para Molina, esse é justamente um dos maiores desafios da sua caminhada. Fazer rap longe dos polos tradicionais, em um lugar onde a cena hip hop ainda não está estruturada, significa começar praticamente do zero. Sem uma cultura forte de rap, skate, grafite ou movimentos underground ao redor, o artista precisa criar o próprio caminho enquanto tenta fazer sua música chegar além das fronteiras da cidade.
“Aqui a gente não tem tanto essa cultura do hip hop, não tem essa cultura do rap, do skate, do grafite, essa cultura mais underground, essa cultura de rua.”
A realidade de Serra Negra ajuda a entender o peso da trajetória de Molina. Em uma cidade pequena, viver de música não é apenas uma escolha artística, mas uma tentativa de furar um bloqueio geográfico, cultural e estrutural. Ainda assim, ele deixa claro que esse é um desafio que está disposto a encarar.
Entre o trabalho de garçom e o sonho da música
Enquanto tenta construir sua carreira, Molina mantém uma rotina pesada. Para conseguir lançar suas músicas, pagar estúdio e seguir tentando realizar o sonho, ele trabalha como garçom em dois lugares, de manhã e de noite. A música entra nos espaços que sobram: nas folgas, nos intervalos possíveis, nos momentos em que ele consegue compor e ir para o estúdio.
Essa parte da história talvez explique muito sobre o tipo de artista que Molina está tentando se tornar. Não existe estrutura pronta, não existe conforto, não existe caminho facilitado. Existe trabalho, vontade e uma tentativa diária de fazer a música caber dentro de uma vida que ainda cobra conta, horário e sobrevivência.
“Por enquanto, pra poder lançar as minhas músicas, pra poder tentar realizar meu sonho, eu tô trabalhando de garçom em dois lugares, de manhã e de noite. Na minha folga, eu pego pra compor, pra poder ir pro estúdio.”
Essa vivência coloca Molina em um lugar comum a muitos artistas independentes brasileiros: o de alguém que ainda precisa sustentar a própria caminhada antes que a música consiga sustentar sua vida. É um processo lento, mas também é onde muita identidade se forma.
O começo durante a pandemia
A relação de Molina com a música ganhou força no começo de 2020, durante a pandemia. Ele já tocava violão antes, mas ainda carregava certa vergonha de se expor. Foi nesse período, entre março e abril, que decidiu começar a gravar vídeos para o Instagram, fazendo covers e marcando os artistas que interpretava.
A resposta foi maior do que ele esperava. Pessoas começaram a gostar dos vídeos, alguns cantores curtiram, comentaram, compartilharam e chegaram a entrar em contato. Aos poucos, aquilo que começou como uma tentativa tímida de se mostrar virou uma porta de entrada para conexões, amizades com produtores, cantores e uma rede que ajudou Molina a enxergar a música como algo mais sério.
O que antes parecia apenas um teste virou paixão. E depois virou plano.
A primeira ida para São Paulo e uma experiência marcante
Em dezembro de 2022, logo depois do Natal, Molina foi para São Paulo gravar sua primeira música. A ideia inicial era registrar a faixa sozinho, mas o que aconteceu no estúdio acabou se tornando uma das experiências mais marcantes da sua trajetória até aqui.
Durante a gravação, um artista que Molina já ouvia há bastante tempo apareceu no estúdio. Segundo ele, era um cantor e compositor que estava em alta na época e que ainda hoje segue como um nome forte. Depois de ouvir parte da música, o artista perguntou se poderia entrar na faixa.
“O cara olhou pra mim e falou: ‘Mano, posso pular nessa música aí contigo? Posso pular nessa bala?’ E aí eu fiquei: caramba, esse cara gostou do meu trampo.”
A música ainda não foi lançada, mas Molina afirma que o feat está guardado e deve sair este ano. Para um artista gravando a primeira faixa, ver alguém que ele admirava querendo participar do som foi um sinal importante de que havia algo ali para ser desenvolvido.
Mais do que uma colaboração, aquele momento funcionou como confirmação. Molina entendeu que sua música podia alcançar pessoas fora do seu círculo, fora da sua cidade e fora da realidade onde tudo parecia pequeno demais para comportar um sonho grande.
Fazer rap onde quase não existe cena
O caso de Molina chama atenção justamente por não seguir a narrativa comum do artista que nasce dentro de uma cena já movimentada. Serra Negra não aparece como um polo natural de rap, nem como um território onde a cultura hip hop esteja presente em cada esquina. Isso faz com que sua caminhada tenha outro tipo de dificuldade.
Em cidades maiores, o artista muitas vezes encontra batalhas, estúdios, festas, produtores, fotógrafos, videomakers, outros MCs e público interessado em cultura urbana. Em uma cidade pequena, essa estrutura nem sempre existe. Às vezes, o primeiro passo é convencer as pessoas de que aquilo também pode nascer ali.
Molina parece entender esse lugar. Sua história ainda está no começo, mas já carrega um elemento importante: a vontade de representar uma realidade onde o rap não chega pronto. Ele precisa ser construído.
Os próximos passos
Depois daquela primeira experiência em São Paulo, Molina seguiu trabalhando em novas músicas e tentando organizar os próximos movimentos da carreira. O feat gravado ainda está guardado, mas deve ser lançado este ano, funcionando como um dos passos mais importantes para apresentar seu trabalho a um público maior.
O desafio agora é transformar intenção em presença. Molina tem história, tem origem, tem uma rotina real e tem um contraste forte entre a cidade pequena e a ambição musical. Esses elementos podem virar parte central da sua identidade artística, principalmente se ele conseguir mostrar mais do processo, da vida em Serra Negra, das dificuldades e da construção por trás das músicas.
Para um artista independente, principalmente vindo de um lugar onde a cultura hip hop ainda não é forte, a música precisa caminhar junto com narrativa. O público precisa entender quem é Molina, de onde ele vem, por que ele faz rap e o que está em jogo quando ele fala em viver de música.
No fim, a história de Molina é sobre começar longe dos grandes centros e ainda assim insistir. É sobre trabalhar de manhã e de noite, compor na folga, sair do interior para gravar em São Paulo e tentar transformar um sonho em carreira mesmo quando o ambiente ao redor ainda não parece preparado para isso.
Ser de Serra Negra pode parecer limite. Mas, para Molina, talvez seja justamente o ponto de partida que torna sua caminhada diferente.
RAP GROWING – CULTURA EM MOVIMENTO.