O acervo Cultne, considerado o maior arquivo digital de cultura negra do país, completa nesta quinta-feira (29) um ano de reconhecimento oficial. Em 29 de outubro de 2025, o Diário Oficial da União publicou a Lei 15.244, que declara o Cultne manifestação da cultura brasileira, segundo a Agência Senado.
Para quem acompanha a história do hip-hop brasileiro, o nome por trás do arquivo é conhecido: Dom Filó, um dos criadores da equipe Soul Grand Prix e figura central dos bailes do movimento Black Rio, como a Rap Growing contou na matéria sobre os 50 anos do Black Rio.
Como nasceu o acervo Cultne
O arquivo nasceu de duas produtoras de vídeo criadas nos anos 1980 para registrar o movimento negro, que a grande mídia praticamente ignorava. Uma era a Cor da Pele Produção e Vídeo, de Filó Filho, o Dom Filó, e Carlos Medeiros. A outra era a Enúgbarijo Comunicações, de Ras Adauto e Vik Birkbeck, de acordo com reportagem do Correio Braziliense sobre os 40 anos do projeto, em 2020.
A digitalização das fitas VHS começou em 2001. Em 2009, o material foi para a internet com acesso gratuito. Na época da reportagem, eram quase 3 mil vídeos digitalizados.
O que tem no arquivo
Entre as raridades estão o único registro em vídeo da visita de Nelson Mandela ao Rio de Janeiro, em 1991, quando ele se encontrou com músicos brasileiros. O acervo também guarda Lélia Gonzalez discursando na marcha do movimento negro de 20 de novembro de 1983 e quase uma hora de fala de Beatriz Nascimento.
Há ainda imagens de Gilberto Gil e Pelé na África no centenário da Abolição, em 1988, que depois entraram no documentário Refavela 40. Do mesmo ano, o Cultne registrou o I Encontro Nacional de Mulheres Negras, em Valença (RJ), com 440 participantes.
O que muda com a lei
A lei veio do projeto PL 2.345/2023, da deputada Benedita da Silva, aprovado na Câmara em 2023 e no Senado em 2025, com relatoria do senador Humberto Costa. O texto prevê apoio a programas e recursos para gestão, preservação e difusão do acervo, além de acesso amplo ao público.
O apoio é importante porque boa parte do material ainda corre risco. Em 2020, Dom Filó contou ao Correio que só cerca de 30% do acervo estava na internet. Os outros 70% seguiam em fitas magnéticas e películas, sujeitos a deterioração. “É um tesouro histórico que está se perdendo”, disse na ocasião.
Onde assistir
Os vídeos do acervo Cultne estão abertos no site acervo.cultne.tv, organizados por temas como música, carnaval e cultura urbana. Também há uma seleção no Google Arts & Culture.
Leia também na Rap Growing: Estação São Bento: o berço do hip-hop brasileiro e Consciência Black, Vol. I: a coletânea que apresentou os Racionais.
Foto: Acervo Cultne (CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons).
Fontes