Todo fã de rap nacional conhece “Sobrevivendo no Inferno” e “Nada Como um Dia Após o Outro Dia”. Bem menos gente sabe onde os Racionais MC’s apareceram pela primeira vez num disco: a coletânea Consciência Black, Vol. I, lançada pela Zimbabwe Records no fim dos anos 1980. A Rap Growing conta a história desse registro.
Um disco coletivo da cena dos bailes
A coletânea reuniu artistas da cena paulistana do fim dos anos 80, que circulavam pelos bailes black e pelo centro da cidade, onde o hip-hop paulistano tinha nascido poucos anos antes, na estação São Bento e na Rua 24 de Maio. As fontes divergem sobre o ano exato: a Wikipédia em inglês aponta 1988, a Red Bull fala em 1989, e há registros que citam 1990.
Segundo o acervo do Vai Hip Hop, o disco reuniu Racionais MC’s, Edi Rock, DJ KL Jay, Equipe Zâmbia, MC Gregory, Grand Master Rap Junior, Frank Frank, Criminal Master, Sharylaine e Street Dance. As faixas eram “Absoluto”, “Nossos Dias”, “Pobreza”, “Loucos e Loucas”, “Pânico na Zona Sul”, “Minha Musa”, “Changeman Neguinha”, “Black Beat (Melô da Massa)” e “Tempos Difíceis”.
Zona Sul e Zona Norte no mesmo disco
Os futuros Racionais chegaram ao disco em duas frentes. “Pânico na Zona Sul” vinha de Mano Brown e Ice Blue, da Zona Sul de São Paulo; “Tempos Difíceis” era da dupla da Zona Norte, Edi Rock e KL Jay, como registra o blog especializado Dimiliduques. KL Jay também aparece creditado como produtor de faixas do disco.
As duas músicas voltariam no primeiro trabalho próprio do grupo, o EP Holocausto Urbano, de 1990, segundo a Wikipédia. “Pânico na Zona Sul” virou um clássico do repertório dos Racionais.
Sharylaine, a única mulher da coletânea
Outro nome histórico do disco é Sharylaine, que aparece com “Nossos Dias” e foi a única mulher da coletânea, segundo reportagem do Brasil de Fato. Uma das primeiras mulheres da cena, ela começou nas festas da Zona Leste e, décadas depois, foi uma das curadoras da exposição Hip-Hop 80’sp, no Sesc 24 de Maio.
Por que o disco importa
Consciência Black, Vol. I faz parte do pequeno grupo de coletâneas que registraram o rap brasileiro antes de existir mercado para ele, ao lado de Hip Hop Cultura de Rua (Eldorado, 1988), O Som das Ruas (Chic Show) e Ousadia do Rap (Kaskatas). As batidas eram simples e o equipamento, limitado, mas foi nesses discos que nomes como Racionais, Thaíde e DJ Hum deixaram de ser só atração de baile e de roda para virar registro fonográfico.
Leia também na Rap Growing: Relembre o Disco: “Nada Como um Dia Após o Outro Dia” e Estação São Bento: o berço do hip-hop brasileiro.
Foto: Mumu Silva (CC BY 2.0, via Wikimedia Commons).
Fontes