Em 27 de outubro de 2002, os Racionais MC’s lançaram “Nada Como um Dia Após o Outro Dia”, álbum duplo com 21 faixas e quase duas horas de música. Dividido em dois discos, “Chora Agora” e “Ri Depois”, o trabalho reuniu algumas das músicas mais conhecidas do grupo, como “Negro Drama”, “Vida Loka” partes 1 e 2, “Jesus Chorou” e “Da Ponte pra Cá”. Nesta terça-feira (27), o disco completa 24 anos.
Era o primeiro álbum de estúdio inédito depois de “Sobrevivendo no Inferno”, de 1997, o disco que mudou o tamanho do rap no Brasil e que hoje é leitura obrigatória no vestibular da Unicamp. A pergunta em 2002 era como o grupo responderia a esse peso. A resposta veio dobrada.
Um disco em forma de programa de rádio
O álbum é construído como uma transmissão de rádio fictícia, aberta por uma vinheta apresentada por Mano Brown, segundo a ficha do disco na Wikipédia. Todas as faixas foram produzidas pelos próprios Racionais, com gravação de Daniel Ganjaman, Gustavo Lenza e Tejo e masterização de Ricardo Garcia. Os samples vão de Marvin Gaye, Al Green, Ray Charles e Isaac Hayes a músicos brasileiros.
O primeiro disco, “Chora Agora”, tem 11 faixas e concentra o lado mais pesado, com “Negro Drama”, “A Vítima”, “Eu Sou 157” e “Vida Loka, Pt. 1”. O segundo, “Ri Depois”, tem 10 faixas e traz “Jesus Chorou”, “Estilo Cachorro”, “Vida Loka, Pt. 2”, “Expresso da Meia-Noite”, “Trutas e Quebradas” e “Da Ponte pra Cá”. Há participações de Afro-X, em “A Vida É Desafio”, e de Trilha Sonora do Gueto e Rosana Bronks, em “1 por Amor 2 por Dinheiro”.
“Negro Drama” e “Vida Loka”: as faixas que atravessaram gerações
“Negro Drama” virou uma das letras mais citadas do rap nacional, um retrato da trajetória de quem vem da periferia e passa a ser visto de outro jeito sem deixar de carregar a origem. As duas partes de “Vida Loka” fizeram o caminho inverso do confronto: falam de fé, de família e de sobreviver ao cotidiano, e se tornaram hinos repetidos até hoje em shows, festas e batalhas.
Os singles lançados em 2002 foram “Vida Loka I”, “Vida Loka II”, “Negro Drama”, “Jesus Chorou” e “Estilo Cachorro”. No mesmo ano, o álbum venceu o Prêmio Hutúz de Álbum do Ano, e em 2009 foi apontado entre os melhores discos de hip-hop brasileiro da década.
O lugar do disco na história dos Racionais
Em 2007, a Rolling Stone Brasil colocou “Nada Como um Dia Após o Outro Dia” em 88º lugar na lista dos 100 maiores discos da música brasileira; “Sobrevivendo no Inferno” ficou em 14º. KL Jay atribuiu ao álbum a consolidação da carreira do grupo, e Mano Brown já o chamou de o melhor trabalho dos Racionais.
Mais de duas décadas depois, o disco segue como referência para quem faz rap no Brasil: longo, sem pressa, com faixas de sete, oito minutos que recusam a lógica do single. A série Relembre o Disco já revisitou “Rap é Compromisso!”, de Sabotage, outro álbum que ajudou a definir o rap paulista dos anos 2000.
Fontes e créditos
Data de lançamento, faixas, produção, samples, singles, prêmios, listas e falas de KL Jay e Mano Brown: Wikipédia, com base em AllMusic, Rolling Stone Brasil e entrevistas do grupo. Imagem de capa: Racionais MC’s na Virada Cultural de São Paulo, por Mumu Silva, via Wikimedia Commons (CC BY 2.0).