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Música

Do ponto cego do Sudeste: Kivush sai das batalhas do Espírito Santo e dá o primeiro passo na música

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Por Rap Growing

Nem todo artista nasce com holofote. Alguns vêm do silêncio, da margem, do ponto cego. É desse lugar que surge Kivush, nome que começa a circular fora do Espírito Santo após anos de vivência nas batalhas de rima de Marataízes (ES).

Longe dos grandes centros e fora dos radares tradicionais da indústria, o rapper construiu sua base no freestyle, no improviso e no contato direto com a rua. Agora, ele dá seu primeiro passo oficial na música, transformando vivência em registro.

Das batalhas para o estúdio

A trajetória de Kivush começa como a de muitos MCs do underground: microfone aberto, roda de rima e disputa verbal. As batalhas capixabas foram escola, treino e teste de resistência. Ali, o artista aprendeu timing, presença e, principalmente, a sustentar a própria voz.

O Espírito Santo, muitas vezes esquecido no mapa do rap nacional, é parte central da identidade do artista. Não como bandeira de marketing, mas como vivência real.

Primeiro lançamento, sem pressa e sem fantasia

Kivush acaba de lançar sua primeira música nas plataformas digitais. Sem discurso grandioso, sem personagem inflado. O foco está em aprender o jogo, entender o processo e construir passo a passo.

É o começo de uma caminhada que ainda está longe de qualquer glamour — e o próprio artista sabe disso.

Influências do freestyle e respeito às raízes

Inspirado por nomes históricos do freestyle brasileiro, como César — considerado por muitos o maior MC de improviso da história do país — e por Noventa, outra referência capixaba, Kivush carrega essa escola na forma de escrever e se posicionar.

Não se trata de copiar estilo, mas de herdar postura: falar o que vive, sustentar o que diz e não pular etapas.

Trabalho, estrada e vontade

De olho na própria evolução, o artista já vem fazendo viagens frequentes a São Paulo, buscando imersão, contato com outros ambientes e crescimento artístico. Não como atalho, mas como aprendizado.

Para 2026, Kivush planeja lançar uma mixtape e um álbum, projetos que ainda estão em desenvolvimento e que devem refletir exatamente esse momento: alguém que está chegando para trabalhar, não para posar.

“Se depender de força de vontade, isso eu tenho de sobra.”

Underground em movimento

Kivush não surge como fenômeno, nem como promessa fabricada. Ele aparece como aquilo que realmente é: um artista em início de trajetória, vindo de fora do eixo, com disposição para errar, aprender e insistir.

No rap, nem todo caminho é rápido. Alguns são longos — e começam assim.

RAP GROWING — CULTURA EM MOVIMENTO

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Cultura Hip-Hop

Julgamento pela morte de Tupac avança com 17 testemunhas e falas de Keffe D no centro

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A primeira semana do julgamento pela morte de Tupac Shakur colocou Duane “Keffe D” Davis no centro de uma disputa entre memória, confissão pública e prova judicial. Em Las Vegas, jurados ouviram testemunhas, investigadores e registros antigos que a acusação usa para sustentar a tese de que Davis ajudou a organizar o ataque de 1996.

O ponto mais sensível é que Davis não é acusado de ter disparado contra Tupac. A acusação afirma que ele estava no Cadillac branco envolvido na emboscada e que suas próprias declarações, dadas em entrevistas, livro e conversas com autoridades, ajudam a reconstruir a dinâmica do crime.

A defesa tenta desmontar justamente esse eixo. O argumento é que as falas de Davis foram exageradas, contraditórias e moldadas por anos de espetacularização em torno do caso. Por isso, a Rap Growing trata essas declarações como material em disputa, não como veredito.

O que o júri ouviu

Segundo a cobertura da Associated Press, os primeiros dias do julgamento tiveram 17 testemunhas. Entre os elementos apresentados, jurados ouviram uma gravação de 2008 na qual Davis atribui os disparos a Orlando “Baby Lane” Anderson, seu sobrinho, morto em 1998.

A acusação também recupera a briga ocorrida em um cassino de Las Vegas pouco antes do ataque contra o carro em que estavam Tupac e Marion “Suge” Knight. Para os promotores, aquele episódio teria sido o estopim de uma retaliação. A defesa, por outro lado, questiona a investigação original e a confiabilidade de versões reconstruídas quase três décadas depois.

Davis se declarou inocente. Isso precisa aparecer com clareza porque o caso atravessou 30 anos de documentários, podcasts, teorias e recortes de internet. A diferença entre relato, hipótese, prova admitida e decisão do júri é parte central da cobertura.

O peso cultural do processo

O julgamento não mexe apenas com a memória de um assassinato. Ele toca uma ferida da cultura hip-hop: a forma como a morte de Tupac virou produto, lenda e disputa narrativa. Durante anos, a ausência de julgamento abriu espaço para versões paralelas que cresceram junto com o mercado de true crime e nostalgia do rap dos anos 1990.

Agora, a sala do tribunal força outro tipo de leitura. O que antes circulava como entrevista, autobiografia ou conversa de bastidor passa a ser confrontado por regras processuais, testemunhas e evidências. Isso não elimina a dimensão simbólica de Tupac, mas reposiciona o caso num terreno mais duro.

Também é preciso evitar a armadilha de transformar o julgamento em espetáculo. Tupac tinha 25 anos quando morreu, em 13 de setembro de 1996, dias depois de ser baleado em Las Vegas. A dimensão histórica não apaga o fato central: uma vida foi interrompida e uma família acompanha o processo quase 30 anos depois.

O que vem pela frente

O julgamento deve continuar com novas testemunhas e novas disputas sobre o valor das declarações de Davis. Até que haja decisão, qualquer formulação precisa manter o cuidado: Davis é réu, declarou-se inocente e as versões sobre quem atirou ainda estão sendo avaliadas no processo.

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Fontes consultadas

Foto de capa: Tupac Shakur no Club USA, em Nova York, em 1994. Foto: Ron Galella/Ron Galella Collection/Getty Images, via The Guardian.

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Cultura Hip-Hop

Clube de Leitura do Rap abre temporada com Parteum e trata letra como literatura

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O Clube de Leitura do Rap abriu sua nova temporada no Sesc Vila Mariana com Parteum no centro da conversa. A atividade aconteceu no sábado, 22 de agosto de 2026, às 15h, com entrada gratuita, e colocou as letras “Raciocínio Quebrado” e “Raciocínio Inteiro” como material de leitura coletiva.

A ideia do projeto é simples, mas forte: tratar a letra de rap como literatura, documento de época e tecnologia de pensamento. Em vez de ouvir a música apenas como impacto sonoro, o encontro propõe uma pausa para ler, reler, discutir contexto, escolha de palavras, referências e camadas de interpretação.

Parteum é uma escolha precisa para abrir essa temporada. MC, produtor, pesquisador e articulador, ele sempre trabalhou o rap como uma linguagem que junta escrita, beat, desenho de cena e pensamento crítico. Sua obra não separa técnica de reflexão; a palavra entra como construção de sentido, não como enfeite em cima do instrumental.

Rap lido em voz alta muda de lugar

Quando uma letra sai do fone e vira leitura em grupo, ela muda de função. O verso deixa de ser só performance individual e passa a circular como texto coletivo. É aí que o rap aparece com sua potência mais ampla: narrar território, organizar memória, disputar linguagem e traduzir experiências que a cultura oficial muitas vezes tenta simplificar.

Segundo a programação divulgada, o Clube de Leitura do Rap foi criado por Nerie Bento, Marco Aurélio, o Marcola, e Viny Rodrigues. A dinâmica seleciona composições dos artistas convidados, distribui as letras ao público e transforma alguns trechos em ponto de partida para debate.

O encontro com Parteum também funciona como chave para uma conversa maior sobre a escrita no hip-hop brasileiro. A cultura do rap sempre produziu crônica, manifesto, autobiografia, crítica social e ficção urbana, mesmo quando parte do mercado insistiu em tratar tudo isso apenas como entretenimento.

A temporada continua com Hariel e Rico Dalasam

A programação segue em 16 de setembro com MC Hariel e em 17 de outubro com Rico Dalasam. A presença de Hariel amplia a ponte entre rap e funk, duas linguagens periféricas que dividem códigos de rua, tensão com o poder público, narrativa de sobrevivência e disputa de respeito estético.

Já Rico Dalasam leva o debate para outro campo de invenção: afeto, identidade, corpo e gênero dentro da música negra brasileira. O desenho da temporada mostra que o clube não está interessado em congelar o rap em uma única escola. A proposta é aproximar artistas que usam palavra, ritmo e performance para produzir conhecimento.

Para a Rap Growing, esse tipo de agenda importa porque ajuda a reposicionar a conversa sobre hip-hop. Não se trata apenas de celebrar artistas. Trata-se de reconhecer que o rap brasileiro criou biblioteca própria, com autores, estilos, contradições, escolas e leitores.

Serviço

Clube de Leitura do Rap – Sesc Vila Mariana
22 de agosto de 2026, 15h: Parteum
16 de setembro de 2026, 19h: MC Hariel
17 de outubro de 2026, 15h: Rico Dalasam
Endereço: Rua Pelotas, 141, Vila Mariana, São Paulo
Entrada gratuita e classificação livre.

Fontes consultadas

Foto de capa: Divulgação/Assessoria Bianco, via Sampa Online. Referência visual ligada diretamente à temporada do Clube de Leitura do Rap.

Leia também na Rap Growing: Cultura Hip-Hop, Música e Os quatro elementos do hip-hop continuam vivos e em transformação.

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Música

Denzel Curry e Kenneth Blume voltam a desmontar o formato do rap em “ii”

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Denzel Curry e Kenneth Blume voltaram a trabalhar juntos em “ii”, lançado em 21 de agosto de 2026 pela Loma Vista. O álbum tem nove faixas, 24 minutos e uma energia que parece feita para impedir qualquer zona de conforto.

A dupla já tinha deixado uma marca com “Unlocked”, em 2020, quando transformou rap de laboratório, referências de animação, cortes secos e sujeira de sample em uma parceria de culto. Seis anos depois, o produtor antes conhecido como Kenny Beats reaparece como Kenneth Blume, e a mudança de nome ajuda a sinalizar uma nova fase.

O que continua é a tensão criativa. “ii” não tenta suavizar Denzel nem organizar demais suas explosões. O disco trabalha com batidas quebradas, vozes retorcidas, mudanças de textura e um senso de urgência que combina com um MC que sempre rimou como se estivesse empurrando a própria técnica para fora do lugar.

Curto porque não desperdiça ideia

A duração é uma parte importante do projeto. Em 24 minutos, “ii” não deixa espaço para enchimento. Cada faixa precisa ter função, seja para abrir outra dinâmica de flow, para deslocar a produção ou para receber uma participação sem quebrar a arquitetura do álbum.

A Apple Music lista JPEGMAFIA e Westside Gunn entre as participações, enquanto Yebba aparece no encerramento “Difference”. A presença desses nomes ajuda a entender o mapa do disco: rap experimental, tradição de rua, canto soul e uma produção que prefere fricção a acabamento polido.

Blume não age como produtor que só entrega base. Ele interfere na narrativa. A bateria parece comentar a voz de Denzel, os cortes mudam a respiração das faixas e os samples funcionam como pequenas colisões. O resultado é um disco que parece simples no tamanho, mas inquieto na montagem.

Denzel rima entre controle e incêndio

Denzel Curry sempre teve uma característica rara: técnica alta sem perder sensação de corpo. Ele consegue rimar com precisão e, ao mesmo tempo, manter a performance agressiva, física, quase teatral. Em “ii”, isso aparece com força porque as bases não deixam o rapper repousar em um único registro.

O álbum também conversa com a memória do rap de forma menos nostálgica do que parece. Há ecos de boom bap, sujeira noventista e cultura de mixtape, mas nada soa como reconstituição de museu. A dupla usa essas referências para quebrar estrutura, não para pedir licença à tradição.

Por isso, “ii” funciona melhor quando ouvido como sequência espiritual, não como repetição de “Unlocked”. Denzel e Blume retornam à química da parceria, mas não tentam congelar o truque. A graça está em perceber que o formato continua sendo desmontado na frente do ouvinte.

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Fontes consultadas

Foto de capa: Evan Tetreault/Divulgação, via Pitchfork. Imagem oficial da campanha de Denzel Curry e Kenneth Blume.

Leia também na Rap Growing: Música, Rap Internacional e The Game lança “The Documentary III”.

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