O Puro Suco lançou em 6 de novembro de 2026 o álbum A Contribuição Milionária de Todos os Erros, terceiro disco de estúdio do trio de Brasília, com 12 faixas e participações de Emicida, Tribo da Periferia, Clara Lima e Douglas Germano. O título vem do Manifesto Pau-Brasil, que Oswald de Andrade escreveu em 1924, e o grupo chega a ele saindo da mesma cena que a Rap Growing mapeou em Rap do DF: como as cidades-satélite formaram a cena que revelou GOG, Froid e Alves.
Formado em 2017, o Puro Suco reúne os MCs Murica e Peres e o produtor BEATDOMK. O novo disco sucede Cacau, de 2023, e vem depois do álbum de estreia Rataria Popular Brasileira. Em entrevista à Rolling Stone Brasil, Murica resumiu o método do grupo: “música que vem da necessidade, não de uma pressão externa”.
O que tem em A Contribuição Milionária de Todos os Erros
As 12 faixas distribuem as participações em pontos específicos do disco. Emicida aparece em 7 Mil Caminhos, Tribo da Periferia está em Pato Feio, Clara Lima entra em Lapada Seca e Douglas Germano assina As Bençãos, Interlúdio. Não é a primeira vez que Emicida cruza com o grupo: ele já tinha gravado em Vença e no single RPB.
A capa traz cavalos de cores diferentes. Murica ligou a escolha ao calendário: “2026 é o ano do cavalo”, disse ele à Rolling Stone Brasil, associando o animal a progresso, independência, coragem e dinamismo na astrologia oriental.
Sonoramente, o trio mistura boombap de sample, levadas brasileiras e, nesse disco, texturas eletrônicas. A divisão de tarefas é explícita: Murica escreve, BEATDOMK garimpa os samples e Peres cuida da mixagem. “Cada um traz a sua pesquisa e o seu ingrediente pro suco”, definiu Murica.
De onde vem o título: o Manifesto Pau-Brasil
A frase que dá nome ao álbum está no Manifesto Pau-Brasil, texto de 1924 em que Oswald de Andrade propôs uma arte brasileira que não copiasse a europeia. Entre as coisas que o manifesto valoriza está justamente “a contribuição milionária de todos os erros”.
O grupo transporta a ideia para o rap: os erros do passado trouxeram o trio até aqui, e a proposta declarada é errar melhor adiante. É um movimento que aparece com frequência no rap brasileiro, de coletivos que viraram gravadora a artistas que assumiram o controle do próprio catálogo, como a Rap Growing contou em As gravadoras de rap fundadas por rappers: Zimbabwe, Cosa Nostra, LAB Fantasma, NADAMAL e 999.
Tropicalismo, herança melódica e a conversa com os mais velhos
Murica rejeita a leitura nostálgica. “O Tropicalismo já foi”, disse ele à Rolling Stone Brasil, ao defender que o grupo é rap e é música brasileira ao mesmo tempo, com “a nossa herança melódica”. O disco foi feito em 2025 e 2026, e o trio não trata a tradição como destino, mas como repertório.
Sobre as participações, o rapper usou uma palavra que explica o peso de ter Emicida e Tribo da Periferia no mesmo álbum: “chancela”. E completou: “Nosso rap é reconhecido pelos nossos mestres e professores”. Emicida, aliás, construiu essa posição de referência desde o primeiro disco, que a Rap Growing revisitou em Relembre o Disco: O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui, a estreia de Emicida em álbum.
Por que o Puro Suco importa na cena do Distrito Federal
Brasília tem uma linhagem de rap que vai do Câmbio Negro e do GOG a nomes mais recentes, e boa parte dela se formou nas cidades-satélite, longe do Plano Piloto. O Puro Suco entra nessa sequência com um projeto que não aposta em velocidade de lançamento: o próprio trio descreve a criação como deliberada e sem pressa.
O resultado é um disco que mira o reconhecimento interno da cena antes do volume de streams. Com Emicida, Tribo da Periferia, Clara Lima e Douglas Germano na mesma tracklist, o trio formaliza uma rede que vai do rap paulista ao de Brasília e passa pela música brasileira fora do rap.
Fontes e créditos
Entrevista, declarações de Murica, formação do trio, data de lançamento, número de faixas, participações por faixa, referência ao Manifesto Pau-Brasil e explicação da capa: Rolling Stone Brasil. Registro do lançamento e lista de participações também no Rap Dab e no Mundo da Rua. Foto de capa: Divulgação, via Rolling Stone Brasil.